A reconstrução de Ulisses
Artista recria o mito do herói grego em instalação feita com materiais recicláveis e objetos tirados da natureza
por Marco Antonio Barbosa
Soberano e aventureiro, guerreiro imbatível, estrategista ardiloso, marido merecedor de uma espantosa fidelidade, personagem que inspirou tanto os poetas da Grécia antiga quanto o mais iconoclasta dos escritores do século XX. Eis Ulisses, rei de Ítaca, marido de Penélope, líder da invasão grega à cidade de Troia (concluída com o uso de certo cavalo de madeira gigante, ideia do próprio Ulisses). A saga do herói, uma dos mais memoráveis de toda a Antiguidade grega, ganha ares contemporâneos (mas devidamente conectados com a história) pelas mãos de José Rufino, que mantém em cartaz até fevereiro de 2013, na Casa França-Brasil, no Rio de Janeiro, a instalação Ulysses. Artista plástico e paleontólogo, o paraibano Rufino imaginou uma recriação do corpo e das aventuras do guerreiro, usando materiais típicos da natureza e do meio urbano cariocas – madeiras, pedras, ferros, concreto, conchas, cerâmicas – numa obra que se estende por quase 200 metros quadrados.
Ulisses ganhou a imortalidade pelos versos de Homero (que viveu no século VIII a.C.), o maior dos poetas da Grécia antiga. É personagem importante das duas obras fundamentais do autor, a Ilíada e a Odisseia. A primeira conta como os gregos e os troianos se envolveram numa guerra que durou dez anos, deflagrada pelo rapto de Helena, esposa do rei de Esparta, Menelau, por Páris, príncipe de Troia. A Odisseia reconta a saga que os gregos enfrentaram para retornar ao lar – segundo Homero, foram 17 anos vagando até que Ulisses afinal reencontrasse sua amada Penélope, que nunca duvidou de que o marido fosse retornar um dia. Para o poeta, o rei de Ítaca era um “herói de mil estratagemas que tanto vagueou, depois de ter destruído a acrópole sagrada de Troia, que viu cidades e conheceu costumes de tantos homens e que no mar padeceu mil tormentos, quanto lutava pela vida e pelo regresso dos seus companheiros”. Depois de protagonizar as histórias que, na opinião unânime dos estudiosos, fundaram a literatura ocidental, Ulisses ressurge no século XX como inspiração de James Joyce. O romance do escritor irlandês (1882-1941) que leva apenas o nome do protagonista da Odisseia foi lançado em 1922; a narrativa condensa a saga de Ulisses num único período de 24 horas (transpondo-a para a Dublin de 1904). O livro de Joyce é hoje considerado um marco do modernismo literário, com seu intrincado fluxo de consciência que recria a vida interior dos personagens.
“É uma aventura que passa pelo mito homérico, pela saga do personagem do Ulisses de James Joyce e chega aos heróis e anti-heróis da cidade. É tão Macunaíma quanto Odisseu”, afirma José Rufino sobre sua obra. O autor define sua criação como uma espécie de escavação arqueológica carregada de citações históricas. “Uma transmutação da Odisseia de Homero para as águas, ilhas, mangues, rochedos, rios, e terras cariocas”, conclui Rufino, que trabalhou cerca de dois meses coletando os materiais que seriam usados na instalação.
fonte: http://www2.uol.com.br/historiaviva/noticias/a_reconstrucao_de_ulisses.html
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