quinta-feira, 31 de janeiro de 2013


O homem por trás da Máscara de Ferro
Voltaire, Alexandre Dumas, e até Hollywood fizeram do famoso prisioneiro um indesejado gêmeo de Luís XIV. Três séculos após sua morte, os historiadores descrevem um homem que sabia demais

  por Michel Vergé-Franceschi

Prisão da Bastilha. Um homem de cerca de 45 anos sai da capela da fortaleza. De volta para a sua cela, acostumado com o regi-me carcerário, ele desaba. Ataque cardíaco? Embolia pulmonar? Hemorragia cerebral? Provavelmente algo do gênero. A embolia parece ser a causa mais provável, já que o prisioneiro ficou encarcerado durante 34 anos sem fazer muitos exercícios, causando problemas de circulação. O sedentarismo parece ter provocado um inchaço das pernas: “Ele tinha a perna um pouco grossa na parte de baixo”, ao que parece. Às vezes, ele tinha também dificuldades para respirar, como seu carcereiro, Bénigne Dauvergne de Saint-Mars, escreveu ao marquês de Louvois (secretário de Estado de Luís XIV) em 3 de maio de 1687, após a transferência do detento de Exilles para as ilhas de Lérins: “Fiquei só 12 dias na estrada, porque meu prisioneiro estava doente, ele dizia que não tinha tanto ar quanto desejava”. Certamente, as dificuldades respiratórias eram causadas pela máscara de aço e a lona encerada que cobria sua liteira. Esses dois sintomas podem ter sido de uma embolia pulmonar fatal: pernas inchadas e dificuldade de oxigenação, que levou a uma agonia rápida, de menos de 24 horas. Era o dia 19 de novembro de 1703.
 
Certidão de óbito Étienne du Jonca, tenente do rei na Bastilha, escreveu em seu diário: “Na segunda-feira 19 de novembro de 1703, o prisioneiro desconhecido, usando sempre uma máscara de veludo negro, que o sr. de Saint-Mars, governador, trouxe consigo [em 1698] ao voltar das ilhas Sainte-Marguerite e que ele guardou durante um longo tempo, passou mal ao sair da missa, e morreu no dia de hoje, às dez horas da noite sem ter tido uma doença grave. O sr. Giraut, nosso capelão, o havia confessado ontem. Surpreendido pela morte, ele não recebeu os sacramentos e nosso capelão encorajou-o por um momento antes de morrer, e esse prisioneiro desconhecido, guardado por tanto tempo, foi enterrado terça-feira às quatro horas da tarde, 20 de novembro, no cemitério de Saint-Paul, nossa paróquia. Na certidão de óbito colocamos um nome, também desconhecido, e o sr. de Rosarges, major, e o sr. Reil, cirurgião, assinaram o registro”. Ao lado, Du Jonca acrescentou: “Soube depois que ele tinha sido chamado no registro de sr. de Marchiel, e que pagamos 40 libras pelo enterro”.

Um senhor idoso estava muito abatido: o sr. de Saint-Mars, 77 anos, governador da Bastilha. Aba-lado, pois ele guardava aquele prisioneiro diariamente desde a sua chegada à fortaleza de Pignerol, em agosto de 1669. Saint-Mars, viúvo, cujo segundo fi lho acabara de ser fatalmente ferido na Batalha de Spire, no dia 15 de novembro de 1703, e já havia perdido o fi lho mais velho em combate, estava arrasado. Saint-Mars conviveu com o prisioneiro mascarado na Bastilha durante cinco anos. O jornal La Gazette Hollandaise, de J. T. Dubreuil, do dia 9 de outubro de 1698, publicou: “Paris, 3 de outubro: o sr. de Saint-Mars tomou posse do governo da Bastilha, onde mandou colocar um prisioneiro que estava com ele”.

Em setembro de 1687, o monsenhor Louis Fouquet, bispo de Agde, irmão de Nicolas Fouquet, ministro do rei, escreveu: “O sr. Saint-Mars transportou por ordem do rei um prisioneiro de Estado de Pignerol para as ilhas Sainte-Marguerite. Ninguém sabe quem ele é, há proibição de dizer seu nome e ordem de matá-lo se ele o falar... [Ele] estava trancado em uma liteira, com uma máscara de aço sobre o rosto, e tudo que se pôde saber de Saint-Mars foi que esse prisioneiro estava desde muitos anos em Pignerol e todas as pessoas que achamos que estão mortas não estão. Lembre-se da torre dos esquecidos de Procópio de Cesareia”. Monsenhor Fouquet ficou apreensivo. Seria o sr. superintendente, que dizem ter sido abatido em 1680 em Pignerol, que estaria escondido sob aquela máscara?

fonte: http://www2.uol.com.br/historiaviva/noticias/o_homem_por_tras_da_mascara_de_ferro.html






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